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Atenção: todos os textos deste blog são de autoria de Cintia Amorim, estando devidamente registrados. É proibida a reprodução para fins comerciais sem a autorização escrita da autora. As violações serão tratadas por vias judiciais.

BOITATÁ E MAIS UMA HISTÓRIA INUSITADA

BOITATÁ E MAIS UMA HISTÓRIA INUSITADA

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Dizem que Boitatá, a grande cobra de fogo encantada, que protege as matas das queimadas, está com uma terrível dor de cabeça. Tudo por causa da mula-sem-cabeça.

É que a mula descabeçada vive apavorada cuspindo fogo sem parar. Boitatá já não sabe mais o que fazer, pois é dele a responsabilidade de as matas defender.

Boitatá vivia no fundo do rio, bem no fundo mesmo. Só a noite costumava sair para dar umas voltas e conferir cada cantinho da mata. Ele era muito grande e gostava de as pessoas assustar.

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Dizem as más línguas que ele era espírito ruim, que trazia má sorte. Verdade ou não, uma coisa nós podemos afirmar, Boitatá levava sim, muito azar, mas só para quem gostava de a mata queimar.

Um certo dia surgiu uma grande questão, pois Boitatá, intrigado, procurava explicação para um fenômeno recente. Toda virada de quinta para sexta-feira, a mata era agredida por fogo ardente. Como desvendar esse mistério? Para Boitatá esse era um problema muito sério.

Preciso descobrir quem é esse desavisado que está queimando a floresta. Será que não sabe que por aqui anda o temível Boitatá? – a grande cobra não cansava de se perguntar.

Ele queria a todo custo descobrir o causador das queimadas. Procurava qualquer informação, uma pista por menor que fosse, mas que denunciasse o malvado. Mas como conseguir notícias? Não tinha boas relações com as pessoas do povoado.

Boitatá decidiu a sair à noite à procura de respostas. Tentava ouvir alguma conversa, algum boato, qualquer fofoca entre a pequena população que habitava a região.

Mas, tudo em vão! Assim que a viam, as pessoas quase tinham um ataque! Algumas disparavam a correr, outras simplesmente desmaiavam e ainda tinham aquelas que se ajoelhavam implorando compaixão. Boitatá vivia uma desilusão!

Começou até a enfrentar uma pequena crise de existência. Já duvidada de sua eficiência de a floresta proteger.

Ah! Logo eu que tenho tanto poder, não consigo uma situação tão simples resolver! – costumava lamentar a cobra em seu canto, em completo desencanto.

Até que enfim, Boitatá…

Até que em uma quinta a feira à noite, resolveu passear. A noite estava clara, iluminada pela grande lua cheia. Como sempre, não ouviu nem viu nada.

Há muito já não trombava com viajantes noturnos. As pessoas que conheciam sua fama evitavam passar por aquelas redondezas. Boitatá era pura tristeza!

Encontou-se ao pé de uma árvore e começou a cochilar, até que um barulho estranho espalhou-se pelo ar. Parecia ser o trote de um cavalo. Boitatá resolveu seguir o som. Devia ser algum forasteiro desavisado a andar pela floresta.

Esta noite vou fazer uma festa! – finalmente soltou uma risada.

A cobra atrevida correu em direção ao som. E, chegando, quase perto ouviu um choro fininho, algo parecido com um gemido. Uma mulher estava a chorar, provavelmente tinha se perdido naquele lugar!

Boitatá ensaiou baixinho alguns de seus sustos preferidos. Lustrou a barriga iluminada e até tentou fazer uma careta! Porém, quando a cobra deu o bote soltando um grito horripilante, parou no ar por um instante. Quase morreu do coração!

Pois agora o feitiço virara contra o feiticeiro, e quem levou um baita susto foi o próprio Boitatá. Pois deu de cara com a mula-sem-cabeça a chorar.

A mula, por seu lado, também ficou apavorada, e a grande chama que saía de seu pescoço, que já estava quase se apagando, aumentou tremendamente, foi aquele fogaréu. Fez-se uma tocha que quase chegou ao céu!

Nem é preciso falar o que aconteceu com a mata. Pois a mula descabeçada, fugindo em disparada, saiu ateando fogo para todo lugar, e a floresta inteira pôs-se a incendiar.

Boitatá ficou desesperado, estava ainda esticada no chão refazendo-se do susto, quando viu sua floresta correr um grande perigo.

Graças a uma mágica que custou a aprender, pôde fazer chover, uma chuva bem fininha, quase uma garoa. Mas que protegia a floresta de virar puro carvão. E foi essa a salvação!

Bem, o mistério agora estava resolvido. Era a mula-sem-cabeça a grande culpada pelos recentes incêndios! Mas, e o que fazer? Boitatá só encontrou uma solução.

O plano de Boitatá

Fez uma longa pesquisa. Pegou um velho livro empoeirado, que há muito tempo andava encostado em seu velho baú. Um “O Grande Livro  do Folclore Brasileiro”.

Leu tudo a respeito da mula, e descobriu que, na verdade, tratava-se de uma mulher amaldiçoada por estar terrivelmente apaixonada por um padre. Também descobriu que ela costumava aparecer nas noites de quinta para sexta-feira.

Humm! Agora tudo faz sentido! – resmungou.

Boitatá também descobriu que havia jeito de acabar com aquele feitiço. Era preciso tirar o cabresto que a mula carregava ou então furar-lhe com um objeto pontiagudo até que sangrasse. Era preciso ter coragem!

Coragem eu tenho. O que preciso agora é de uma boa estratégia! – concluiu, fechando a enciclopédia.

E foi assim que, durante muitas quintas-feiras, Boitatá tentava se aproximar da mula. Contudo, em vão! Assim que o descabeçado equino encontrava Boitatá dava um coice e saía a relinchar. E, no lugar da cabeça, o mesmo fogaréu que quase atingia o céu.

A cobra enorme foi ficando cada vez mais irritada:

– Puxa vida, mas que mula mais descabeçada! Não pode nem parar um segundo para a gente conversar, e olha que eu só quero ajudar, dar um jeito para esse feitiço acabar!

Já levantei bandeira branca, já coloquei faixa na floresta dizendo para ter um pouquinho de paciência! Mas que mula pirracenta! E o pior é que toda vez que me aproximo daquele estúpido equino ele sai igual uma besta incendiando tudo pelo caminho.

Percebendo que seria inútil tentar aproximar-se da mula, Boitatá voltou para os livros. Descobriu que havia também outra maneira de quebrar aquela terrível maldição.

Era preciso que o padre, por quem a mulher-mula estava apaixonada, a amaldiçoasse sete vezes durante o sermão.

Acho que terei uma conversinha com esse reverendo – disse a cobra.

Mas não pensem que foi fácil, pois toda vez que o religioso se deparava com o bicho horrendo, uma cobra iluminada com enormes olhos de fogo, também saía em disparada, rezando e esconjurando a estranha criatura. Boitatá realmente vivia uma grande desventura!

Foi assim que resolveu escrever um bilhete, explicando toda a situação. A floresta corria o risco de virar puro carvão. E Boitatá, zeloso de sua missão, não podia assistir a tudo sem buscar uma solução.

O padre leu o recado, e, compreensivo, resolveu ajudar. Mas ninguém entendia nada, achavam que o padre estivesse endoidando, pois começava a missa sempre praguejando.

Como o santo homem não sabia ao certo quem era a apaixonada, amaldiçoava todas as mulheres do lugar. Ele, inclusive, corria o sério risco de um dia apanhar. Os maridos não estavam gostando nada daquela situação.

Vamos dar nesse padre uma lição! – diziam os homens com raiva e emoção.

 Bem… o certo é que, com o tempo,  as maldições do padre acabaram dando certo. As queimadas diminuíram, os encontros com a mula tornaram-se cada vez menos frequentes, até que um dia acabou.

Boitatá agora podia respirar aliviado. Aquele grande problema já estava eliminado.

Mas por um curto período, e eu explico o por quê.

É que o padre do povoado, com medo de morrer, teve de procurar outro lugar para viver e trabalhar. A população não conseguia engolir a tal história que ele lhes contou. Que estava apenas ajudando o Boitatá à mata preservar.

Então, além de ficar xingando a mulher dos outros, o senhor anda de amizade com esse fantasma horroroso, que só mete medo em todo mundo, provocando alvoroço!

O padre foi embora e outro chegou para assumir seu lugar, e, para desespero de Boitatá, ele era jovem, alto, forte e muito bonito, além simpático e erudito.

Imagine só! Lá vem de novo confusão! Boitatá já não conseguia mais dormir pensando em quantas mulas-sem-cabeça ainda estavam por vir:

Essa não! Preciso tomar uma séria decisão. Não sei se mudo de região, ou se deixo essa floresta virar puro carvão!

FIM

E aí, o que você acha que Boitatá deve fazer? Deixe seu comentário abaixo.

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um grande abraço,

Cintia Amorim.

2 Comments

  1. A onça tem que enviar uma agulha na mula

    • Você acha? kkkk…. obrigada, volte sempre!

Trackbacks/Pingbacks

  1. Brincadeiras para crianças sobre o folclore brasileiro - […] no chão como o grande Boitatá, a cobra de fogo […]

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