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Atenção: todos os textos deste blog são de autoria de Cintia Amorim, estando devidamente registrados. É proibida a reprodução para fins comerciais sem a autorização escrita da autora. As violações serão tratadas por vias judiciais.

O MORCEGO E O PÉ DE JATOBÁ

O MORCEGO E O PÉ DE JATOBÁ

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Dedico esta história infantil curta à geógrafa Aline Guerra e ao geólogo José Roberto, amigos espeleólogos sempre atentos à luta pela valorização dos importantes,  inofensivos e tão discriminados  morcegos.

Se você também acredita importância do ecossistema, e de todos os animais nele incluídos, leia esta tocante história.

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Havia em meio ao cerrado um belo pé de jatobá, seu tronco velho e cansado ameaçava se quebrar.

Após uma forte chuva, que mais era tempestade, o tronco ficara fraco, pois se rachara na metade. Rachadura tão profunda que se via sua seiva escorrer, o belo pé de jatobá tinha medo de morrer.

Ele estava triste de ter de partir, pois nascera, crescera e se criara bem ali. Já enfrentara fogo, frio e calor. Conhecia muitos bichos, muitos insetos e todo o passaredo. Mas tinha especial simpatia por um morcego.

Em muitas noites o morcego visitava o jatobá, para conversar um pouco e buscar o jantar. O morcego adorava o pé de jatobá, gostava do seu fruto, comia até cansar, depois parava um pouco pra poder papear.

Boa noite jatobazeiro. Como tens passado? Tenho te achado triste, assim, meio amuado.

Ah, morceguinho, sei que você é meu amigo. Com você eu posso conversar, posso me abrir. Sabe de uma coisa? Tenho medo de partir.

Mas partir, como? Você é uma árvore, está presa ao chão. Não pode sair do lugar. Que ideia é essa de querer passear?

Não se trata disso morcego, é claro que não vou a lugar nenhum. Eu vou partir deste mundo. Dá para entender?

Bem, e por que você acha que está partindo?

– Ora, porquê? Não notou a rachadura?

– Rachadura, onde? – perguntou o mamífero.

No meu tronco, morcego. Você é tão distraído!

– Não é distração, minha amiga. É que eu enxergo mal mesmo. justificou-se o mamífero. Mas, me diga, quando isso aconteceu?

– Foi no último vendaval. Acabei me dando mal. – resmungou a árvore. E completou:

Sabe, morcego, estou me sentindo muito fraca. Sinto minha seiva escorrer. Quero lhe pedir um favor.

– Pois diga, cara amiga.

– Não quero partir deste mundo sem deixar minha marca, sem deixar minha história. Peço a você que coma meus frutos e que lance as sementes à beira da lagoa. Lá sei que terão condições melhores de brotar. – disse a árvore.

O morcego ficou triste ao ouvir o pedido da amiga. Mas prometeu atendê-lo. E assim, durante muitas noites ele comia o jatobá e voava longe, a fim de lançar suas sementes à beira da lagoa.

Porém, o morcego sempre deixava algumas sementes caírem perto do jatobazeiro. E pensava:

– Sei que irão nascer muitas mudas para alegrar minha amiga.

Boas notícias de Primavera

Passaram-se alguns meses. Chegou a primavera. O pé de jatobá foi perdendo as forças, mas nunca a esperança.

Certo dia, quando já estava todo amarelado, o morcego veio visitá-lo à noite.

Tenho ótimas notícias. Com essas gostosas chuvas da primavera, duas das sementes que lancei perto da lagoa já começaram a brotar. Bem… você sabe que eu não enxergo lá essas coisas… mas ontem, quando estava passando por perto, a coruja chamou minha atenção:

Ei, ei morcego. – Ela disse: – estou sabendo do seu esforço para ajudar o pé de jatobá. Pois saiba que já tem arvorezinhas brotando por aí. Já vi duas próximas ao lago. 

A árvore ficou muito feliz com a notícia, e comentou:

Sabe, amigo morcego, essa é a verdadeira eternidade. Na verdade, todos nós vamos passar. Só nos resta ter coisas boas para deixar em nosso lugar.

Só que o jatobazeiro não esperava a melhor notícia. E o morcego completou:

Minha amiga, eu fiz um pouco mais do que você me pediu. Além de espalhar suas sementes na beira da lagoa, também soltei algumas aqui perto, ao seu redor. E como eu sei que por aqui não tem muita água, eu trouxe, durante muito tempo, umas gotinhas para regá-las. E também fiz questão de adubá-las com meu próprio guano.

A árvore achou graça do pequeno animal. Mas ele completou:

Sabe de uma coisa? A coruja, discretamente também me ajudou. E me falou de um fino tronco de jatobá brotando a apenas alguns metros daqui. Quando amanhecer você poderá reparar melhor.

De fato, quando clareou o dia, o jatobazeiro pôde encontrar, bem fininho, em meio ao mato, um tronco de pé de jatobá. A árvore ficou imensamente feliz. Ela ria da copa até a raiz.

E, passado mais algum tempo, viu sua pequena cria crescer. Estava ficando forte e bonita, não parava de se desenvolver. Aquela pequena árvore fazia companhia ao velho jatobazeiro, que a cada dia ia ficando mais fraco, porém, mais feliz.

E o morcego também trazia notícias de outras mudas que estavam a brotar.

Em cada canto deste cerrado há um pé de jatobá.

E, tempos depois, quando ia à beira da lagoa, ou quando ia buscar seu jantar, o morcego conversava com os novos jatobazeiros. Ele costumava comentar:

Vocês vieram de uma árvore muito sábia e feliz. Uma árvore que soube deixar no mundo sua raiz.

Os pequenos jatobazeiros ficavam encantados com as visitas noturnas do bom amigo. E gostavam também das crias do morcego. Na verdade ficou estabelecida uma grande parceria.

Quanto mais os morcegos semeavam jatobás, mais facilmente achavam o jantar.

E até hoje os morcegos espalham sementes. Não deixam nenhuma espécie de árvore se acabar. E assim no cerrado há abundância de bichos, abundância de vida e muito jatobá.

FIM

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Pequena nota da autora:

A esmagadora maioria das espécies de morcegos são, ou frugíveros (que se alimentam de frutas), ou insetívoros (que se alimentam de insetos). E são animais indispensáveis para o bom equilíbrio ambiental.

Os morcegos são extremamente importantes para a disseminação de sementes, tanto através do carregamento, quanto através de suas fezes. Assim como os pássaros, eles ajudam a renovar áreas florestadas.

E são igualmente indispensáveis para o controle de insetos. Um único morcego pode comer dezenas de insetos durante a noite. Sua falta, portanto, causaria uma indesejada infestação, inclusive em centros urbanos.

Das mais de 1.000 espécies de morcegos, menos de meia dúzia são, de fato, hematófagos (que se alimentam de sangue). Mas sua reputação (de Conde Drácula) e sua aparência não muito bonita, acaba por fazer que muitas pessoas os agridam injustamente.

Na verdade, os morcegos não são conhecidos por terem boa visão. Uma interessante característica deles é que se orientam pela ecolocalização, que é um sistema em que emitem sons para não trombarem nos obstáculos.


E aí, gostou desta história infantil curta? Então permita que mais pessoas a conheça. Compartilhe clicando nos ícones das redes sociais abaixo.

Deixe também seus comentários, críticas, sugestões abaixo. Isso é importante para mim e para o blog. Ficarei muito feliz em lhe responder.


um grande abraço,

Cintia Amorim.

imagem: freepik.com

8 Comments

  1. menina que linda esta história… vou adicionar no meu repertorio. Amei!!!

    • Que bom que você gostou Clair, fiz inspirada em alguns amigos que me ajudaram a enxergar a importância dos morcegos. Esses bichinhos feios e tão discriminados, mas de extrema importância para o meio ambiente. Obrigada por seu comentário, isso ajuda a construir um conteúdo cada vez melhor.

    • Esse é o melhor comentário que um escritor pode ouvir. Obrigada Hercília!

  2. Obrigada por essa história,graças a ela meus filhos conheceram a importância dos morcegos para o ecossistema …também adoro a princesa extressada,mais eles já não podem ouvir essa..kk

    • Que legal Marcela, fico feliz que esteja gostando. E sim, é super importante superar essa visão meio distorcida que se tem dos morcegos.
      Por mais que gostemos deles nas histórias de terror, rsss, é preciso valorizá-los.
      Grande abraço.

  3. Cintia, eu quero fazer duas correções na sua estória:
    1) os morcegos não enxergam mal nem são cegos – sua visão é adaptada para ver na escuridão. Muitas espécies frugívoras enxergam até algumas cores.
    2) Existem cerca de 1230 espécies de morcegos no mundo, representados em todos os continentes, com exceção apenas do Ártico, do Antártico e de algumas ilhas isoladas. Em todo o mundo existem apenas três espécies de morcegos hematófagos e sua existência se dá apenas nas Américas.
    Das três espécies existentes, duas se alimentam do sangue de aves (Diphylla ecaudata e Diaemus youngii) e uma ataca também, além das aves, mamíferos (Desmodus rotundus.
    Um abraço,
    Rosângela

    • Obrigada.

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